Tendências

Estivemos no SXSW London 2026: em um mundo acelerado pela IA, o diferencial continua sendo humano

A segunda edição do SXSW London, realizada entre os dias 1 e 6 de junho, confirmou algo que vem aparecendo de forma recorrente nos principais fóruns globais de inovação: a discussão sobre tecnologia está amadurecendo. Se nos últimos anos o debate esteve concentrado nas possibilidades da inteligência artificial, desta vez a atenção se deslocou para uma pergunta mais complexa: como preservar capacidades humanas essenciais em um mundo cada vez mais automatizado?

A HSR esteve no evento e acompanhou as conversas. A mudança de tom ficou evidente na participação de Michelle Obama e Craig Robinson, responsáveis por uma das sessões mais aguardadas do evento. Em vez de uma conversa sobre política, tecnologia ou produtividade, os dois conduziram uma reflexão sobre escolhas de vida, aprendizado contínuo e construção de repertório.

Leia aqui o relato de Pedro Secches Brandão que esteve no evento. Spoiler: está imperdível!

Michelle defendeu a importância de acumular experiências, inclusive aquelas que parecem desvios de rota, argumentando que são justamente elas que ampliam perspectivas e ajudam as pessoas a descobrir interesses, vocações e novos caminhos. Em um ambiente profissional marcado pela pressão por resultados imediatos, sua mensagem foi quase contracultural: a capacidade de recomeçar pode ser mais valiosa do que a capacidade de planejar.

Outro tema recorrente ao longo do festival foi a necessidade de desenvolver resiliência em uma sociedade que se acostumou à instantaneidade. Michelle chamou atenção para o valor das experiências difíceis, dos trabalhos imperfeitos e dos desafios que exigem adaptação. A ideia contrasta com uma cultura que frequentemente associa sucesso a trajetórias lineares. Em vez disso, a ex-primeira-dama norte-americana propôs uma visão em que crescimento profissional e pessoal são consequência direta da capacidade de enfrentar desconfortos, aprender com erros e continuar avançando mesmo sem garantias.

Se Michelle Obama trouxe uma reflexão sobre construção de trajetória, a pesquisadora Gloria Mark apresentou um alerta sobre a construção da atenção. Reconhecida internacionalmente por seus estudos sobre comportamento digital, ela destacou como a economia da distração está alterando a forma como trabalhamos, aprendemos e tomamos decisões. Segundo os dados apresentados, o tempo médio que as pessoas permanecem focadas em uma mesma atividade vem diminuindo continuamente, enquanto notificações, plataformas digitais e estímulos simultâneos disputam cada segundo da atenção humana. O impacto vai além da produtividade. A fragmentação constante do foco está associada ao aumento de estresse, fadiga cognitiva e perda da capacidade de aprofundamento.

A inteligência artificial apareceu nesse contexto não apenas como solução, mas também como provocação. Gloria Mark levantou uma discussão relevante para empresas, pesquisadores e profissionais do conhecimento: quando delegamos sistematicamente tarefas complexas aos algoritmos, corremos o risco de reduzir o exercício das competências que fortalecem o pensamento crítico. Resolver problemas, construir argumentos, analisar informações contraditórias e enfrentar desafios intelectuais são atividades que exigem esforço cognitivo e, justamente por isso, desenvolvem habilidades que nenhuma tecnologia consegue substituir integralmente. A questão central deixa de ser o que a IA pode fazer por nós e passa a ser o que deixaremos de exercitar por causa dela.

Ao final de seis dias de debates, uma percepção se consolidou como fio condutor do SXSW London 2026. Mais do que antecipar cenários ou prever o futuro, os debates apontaram a adaptação contínua como uma das competências mais importantes para navegar um ambiente de transformação permanente. Em outras palavras, o evento mostrou que o futuro não será definido apenas pela sofisticação das tecnologias que desenvolvemos, mas pela qualidade das competências humanas que conseguirmos preservar e fortalecer ao longo do caminho.

Para empresas e marcas, a mensagem é a seguinte: em um cenário cada vez mais automatizado, compreender comportamento humano, construir relevância e conquistar atenção genuína se tornam competências tão estratégicas quanto a adoção de novas tecnologias. Quanto mais inteligentes se tornam as máquinas, mais estratégico se torna compreender as pessoas.