SXSW LONDRES | Pedro Secches Brandao
Ato I
Assim que se toca o terceiro sinal, a plateia paralisa-se; só se escuta a respiração de alguns. A cortina faz a sua pausa dramática; todos sabem que ela abrirá, talvez nos próximos segundos. Alguns se mantêm firmes na poltrona, na expectativa de qual será a primeira cena. A cortina abre-se. Os atores em cena. Começa-se a peça. Da mesma forma, eu aguardava a entrada da Michelle Obama na SXSW em Londres. O êxito em vê-la palestrar pessoalmente era unânime entre todos os que estavam na plateia. Michelle começa seu bate-papo com seu irmão Craig Robinson, falando comigo. Claro, não diretamente comigo, mas com os jovens e sobre os jovens.
“Eu entendo a preocupação de vocês sobre o mercado de trabalho, decisões profissionais e pessoais, mas não precisa se colocar essa pressão enorme.” Apesar de ser óbvio, como uma ex-chefe minha dizia: “É sempre bom falar o óbvio porque as pessoas esquecem.” E, realmente, eu havia esquecido. São aqueles momentos em que conseguimos sair do caos do presente e nos olhar sob a perspectiva de uma terceira pessoa. Michelle foi direta: o ambiente em que você se coloca molda o seu pensamento, e as pessoas ao seu redor moldam quem você se torna. Liberdade, para ela, começa por aí — por escolher conscientemente a quem e a que você presta atenção. Me perguntei onde estava o meu cérebro, mas, principalmente, a minha atenção no dia a dia.
Ato II
Claro que, para além da inteligência artificial, o que mais foi discutido nessa edição da SXSW foi a “atenção.” Foi dada enorme ênfase ao fato de que o que diferenciará as pessoas que sofrerão no futuro das que sobreviverão será o poder de atenção de cada uma. Todos sabemos que vivemos bombardeados por informações, que somos o produto da internet. Os números confirmam o que o corpo já sente: o span médio de atenção caiu de 47 segundos em 2014 para ainda menos hoje. No entanto, a qualidade do foco de uma pessoa fará com que ela seja capaz de filtrar quais informações consumir ou não, melhorar a qualidade da sua informação. Assim, você será capaz de guiar a tecnologia, e não o contrário.
Have we lost our brains? Essa foi a pergunta que uma das palestras colocou no ar e ninguém na sala pareceu muito confortável com ela. A internet nasceu com uma promessa genuinamente boa. Havia, no início, um hack positivo ali: acesso, conexão, democratização da informação. Algo se perdeu no caminho. Hoje, as pessoas não conseguem mais prestar atenção ao próprio humor, ao próprio comportamento, às próprias emoções e, muito menos, ao que acontece ao redor. E o mais perturbador é que não é fácil apontar um único culpado. A causalidade é confusa: tudo mudou ao mesmo tempo: a tecnologia, os hábitos, as estruturas sociais. Culpar apenas as redes sociais seria simples demais. Mas ignorar o papel dela seria desonesto.
Kenneth Schlenker, um dos especialistas centrais nessa discussão, colocou de forma direta: estão se formando dois grupos no mundo. Os que perderam o controle da própria atenção e os que ainda a dominam. Essa diferença, mais do que qualquer habilidade técnica, será o que vai separar quem prosperará de quem apenas sobreviverá. A IA vai disputar sua atenção em tudo: redes sociais, trabalho, vida pessoal, e, justamente, esse é o poder direto da IA de capturar atenção. Por isso, vários especialistas classificaram o nosso momento econômico como a “economia da atenção”. A IA não vai substituir pessoas; vai substituir as pessoas que não sabem usá-la. E saber usá-la começa, paradoxalmente, por não ser usado por ele.
A mensagem prática: as pessoas e marcas mais bem-sucedidas no futuro serão as que souberem direcionar atenção com intenção, não as que apenas consumirem. Existem alguns exercícios que podem nos ajudar a voltar para o presente, nos olhar sob a perspectiva da terceira pessoa e treinar nossa mente para ter controle sobre a nossa atenção: meditação e caminhadas sem fone de ouvido. Pequenos gestos, mas com uma lógica clara por trás — recuperar o hábito de estar onde se está.
Ato III
Confesso que a minha expectativa seria que os atores no palco estivessem encenando sobre os nossos ecossistemas, oceanos, fontes de energia, consumo excessivo, o que me fizesse olhar para o coletivo. No entanto, a SXSW de Londres nos propôs um outro exercício: olhe-se para si, como você está se preparando para o futuro? Onde está a sua atenção? Será que você consegue se desconectar e estar no presente? Consegue filtrar e dominar as informações e a inteligência artificial? Ou será que ela dominará o seu futuro? É evidente que um frio na barriga, junto a uma angústia de não saber o que está por vir e se as decisões que eu, ou nós, estamos tomando são as “corretas” — por corretas, me refiro a aquelas que nos trarão felicidade e controle parcial sobre as tecnologias.
E essa angústia, percebi, não é privilégio de nenhuma geração específica. Para mim, que sou jovem, arriscar, errar e começar do zero é dito por todos como parte do processo. Mas e as outras gerações? E aqueles que já estão com uma carreira estabelecida, ou que pensam que já foi o que devia ter acontecido? Uma das palestras levantou uma pergunta que reverberou: o que acontece quando as pessoas param de pedir permissão? Para arriscar, para recomeçar, para dizer “eu não sei” em voz alta, independentemente de onde estejam na vida.
Michelle Obama fecha sua palestra dizendo que é preciso abraçar e viver o terceiro ato de nossas vidas, que a busca por conhecimento não deve parar e que está tudo bem dizer “eu não sei” mesmo no terceiro ato. Sim, recomeçar, errar ou arriscar no terceiro ato é de tamanha coragem e grandeza que mais pessoas deveriam buscar esse processo há tempo. O futuro, afinal, pertence àqueles que conseguem, intencionalmente, viver no presente. E continuará a haver tempo desde que haja atenção a ele.
